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O processo criativo de Quimera (parte 1)
Quimera é uma série de quadrinhos experimentais, organizada em uma estrutura episódica, dividida em capítulos. Optamos por publicar de forma fascicular, nos moldes dos “gibis de banca”, com histórias que continuam quase indefinidamente em longos períodos de publicação. Por outro lado, adicionamos componentes do modelo zineiro, da publicação alternativa. Por exemplo, até o momento trabalhamos com períodos irregulares de publicação e estamos usando uma forma de produção gráfica que nos permite reimprimir os episódios continuamente em baixas tiragens. Do encontro entre os limites técnicos e as decisões autorais-editoriais, é continuamente construído o processo criativo de Quimera.

Quando optamos por publicar os quadrinhos de forma seriada, diversas questões se apresentaram. Em que formato imprimir? Que tipo de papel e acabamento usar? Capa colorida e miolo preto e branco? Fazer ISBN? Como vamos organizar os créditos na versão impressa? Questões aparentemente práticas e objetivas, que escondem (ou revelam) aspectos importantes deste trabalho.

A última questão ali em cima, sobre como imprimir os créditos, contém uma reflexão sobre a autoria de Quimera que está no centro do processo criativo do projeto. Originalmente a proposta de divisão do trabalho projetada envolvia um roteiro ou texto de Rafael Lobo, para que eu (Lucas Gehre) fizesse a quadrinização e desenhos. Essa divisão do trabalho é típica dos quadrinhos industriosos, comerciais, e muitas vezes nessas publicações vemos créditos super específicos, texto: fulano, desenho: beltrano, arte final: sicrano. Mas a realidade é que tanto Rafael quanto eu estamos em uma busca, seja nos quadrinhos ou no cinema ou em outras linguagens, por narrativas em que possamos desenvolver nossas pesquisas como autores, e temos vontade de percorrer caminhos menos comuns. Um desses caminhos incomuns é a procura uma outra possível relação entre quadrinhos e cinema, na tentativa de uma forma própria de fazer quadrinhos cinematográficos.

Além de atender ao desejo de produzir um tipo de “quimera autoral”, onde a linhas que separam as funções de um e de outro são difusas, o processo de Quimera nos levou a um grau de interferência de cada um nas partes do outro que diluiu mais ainda a divisão do trabalho. Os resultados finais, cada episódio publicado, ganham uma outra dimensão, passam a ser mais do que a soma das partes envolvidas em sua feitura. O método em que chegamos envolve muitas discussões na parte do planejamento, e desde um texto conceitual até os storyboards, ainda estamos no estágio que poderia ser definido como roteiro. A partir daí, nas etapas que denominamos lápis e arte-final, retomamos as discussões. Quimera sai desse processo como a música que sai de um acordeón, ida e volta, pressão e alívio, tocado a quatro mãos.

Quimera é um projeto seriado que pretende um grande número de páginas, e que existiu embrionariamente antes de tomar a forma que tem agora. O desenho digital, realizado com o tablet e os textos aplicados como tipografia foram recursos relativamente novos no meu processo, são exemplos de recursos escolhidos para Quimera por questões práticas, mas que abrem novos campos de experimentação.
Em breve vamos compartilhar mais sobre o processo criativo de Quimera, o desenho, a arte-final, as capas e outras partes do trabalho, continue acompanhando aqui no blog!
Lucas Gehre