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Quimera #0 – Prólogo – Videodrome

Quimera #0 – Prólogo – Videodrome

28 páginas, capa colorida, miolo preto e branco.
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Uma das características dos quadrinhos de Quimera é que cada gibi se organiza a partir do diálogo com um filme de horror. Essas obras não aparecem apenas como referências estéticas ou narrativas, mas funcionam como matrizes conceituais que orientam a construção de cada capítulo. No prólogo, essa relação começa com Videodrome (1983), de David Cronenberg, filme em que uma corporação transforma uma transmissão audiovisual em instrumento de intervenção sobre seus espectadores. A aproximação com Quimera já se anuncia aí, no encontro entre imagem, tecnologia e interesses corporativos.

O gibi #0 ocupa um lugar singular dentro da série. Enquanto prólogo, constitui os prolegômenos de Quimera, estabelecendo os pressupostos que orientarão o desenvolvimento da obra. Como num texto filosófico ou científico, esse primeiro movimento explicita as condições de sua própria investigação e define o horizonte conceitual a partir do qual a narrativa será construída. É nesse contexto que Lícia surge no centro de um experimento científico conduzido pelo Grupo Utopia, submetida à exposição a filmes de horror. Videodrome passa então a operar em dois níveis: integra a própria experiência vivida pela personagem e, ao mesmo tempo, oferece uma chave de leitura para a investigação filosófica desenvolvida por Quimera.

Videodrome (1983), David Cronenberg

Em Videodrome, o corpo deixa de constituir um fundamento estável da experiência humana, revelando que a mutação não é um acidente, mas a própria condição de nossa relação com o mundo. Ao articular essa condição às novas tecnologias, à ciência e aos interesses corporativos, o filme coloca em crise a própria estabilidade da realidade, mostrando como o capitalismo reorganiza as formas de vida ao produzir novos regimes de percepção. A narrativa conduz, assim, o espectador para um universo em que a realidade já não admite qualquer fundamento definitivo, abrindo espaço para um mundo marcado pela contingência. Nesse contexto, a monstruosidade deixa de ser uma ruptura da ordem para tornar-se um dado constitutivo da vida, abrindo em nós o inquietante abismo do desconhecido.

É a partir dessas questões, inauguradas no prólogo e orientadas por Videodrome, que os capítulos seguintes passam a dialogar com diferentes tradições do horror. Cada novo filme desenvolve um aspecto específico dessa investigação, aprofundando problemas já apresentados e incorporando novas questões à narrativa. As referências deixam, assim, de funcionar como simples homenagens e passam a operar como instrumentos de pensamento, permitindo que essas diferentes perspectivas dialoguem entre si na construção da cosmovisão de horror de Quimera.

– Rafael Lobo